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Cultura de competição no ballet: estamos colocando jovens bailarinos em risco?

Uma declaração de Christopher Powney, diretor artístico da The Royal Ballet School

As competições têm sido, há muito tempo, uma plataforma onde alunos de dança podem aproveitar experiências positivas e aprender com o compartilhamento de vivências com outros jovens apaixonados, de ideias semelhantes. Muitos profissionais de alto nível falam sobre como as competições lhes proporcionaram oportunidades transformadoras e uma vaga em uma das escolas ou companhias mais prestigiadas do mundo.

Os estudantes ganham muito mais com a experiência do que apenas a chance de ganhar. As competições são sobre conhecer pessoas, fazer novos amigos, comparar diferentes estilos de ensino e dança, medir padrões em relação a colegas internacionais e ser ensinado por professores e treinadores verdadeiramente inspiradores.

Nos últimos anos, houve um enorme crescimento nas competições internacionais de balé. Isso certamente deveria ser uma coisa boa, beneficiando mais alunos com a oportunidade de competir e ser visto. Isto é, em sua maior parte, verdade. No entanto, tenho me preocupado com o impacto que isso está tendo nos alunos e em seus pais. A formação de um estudante está sendo frequentemente acelerada para essas competições de uma maneira que eu acredito que não seja saudável. O balé exige muito mais do que a capacidade física e técnica para executar um passo ou uma sequência de passos. Eu não sou o único a achar que algumas competições promovem uma cultura que não estimula o desenvolvimento de artistas – onde a técnica é enfatizada sobre o talento artístico e os estudantes procuram alcançar extremos antes de terem dominado o básico. Nós vemos o público ávido pelos rebuscados truques físicos em exibição. Esse público deveria estar buscando um bailarino expressivo tentando transmitir emoção, dinâmica, musicalidade, habilidade narrativa, em paralelo a uma técnica bem executada e limpa em relação à sua idade. Não é sobre isso que é realmente a arte?

Essa precipitação pode causar sérios danos psicológicos e físicos. Instituições de balé como a nossa estão aprendendo cada vez mais sobre o corpo e a mente de nossos alunos e pesquisando constantemente como desenvolver bailarinos mais saudáveis e resilientes. Como educadores, acredito que temos o dever de cuidar desses jovens e, como setor, o dever de nos adaptar ou fazer mudanças quando vemos algo potencialmente perigoso acontecendo.

É alarmante que alguns professores encorajem garotas de 9, 10 ou 11 anos a realizarem variações na ponta, com algumas competições permitindo isso. O trabalho na ponta é um suplemento determinante na técnica de balé de uma menina e requer grande força de base. As melhores escolas de treinamento só iniciam o trabalho na ponta aos 11 anos (ocasionalmente 10), depois de se alcançar a força apropriada necessária. O ideal é que isso siga três ou quatro anos de trabalho em meia ponta e treinamento cuidadoso, ao longo de vários anos, a partir de então. Portanto, permitir que estudantes de 9 a 13 anos lidem com essas variações, em um ambiente de alta pressão, é muito preocupante. Existe uma diferença substancial entre os exercícios de trabalho de ponta em aula e o nível esperado dentro de uma variação.

Algumas competições permitem que os meninos realizem pas de deux em idades similares também. Basta considerar como a articulação do ombro e as costas são vulneráveis quando ainda não estão totalmente desenvolvidas ou estáveis. Na maioria das escolas boas, os meninos começam a realizar pas de deux com cuidado aos 14 anos. Por que forçar esses corpos jovens mais cedo quando os riscos de lesões são tão grandes? Não há uma boa razão para que o processo seja acelerado para que a criança ganhe uma competição.

Um jovem bailarino pode ser pressionado tão intensamente que se esgota aos 14 ou 15 anos, porque ele tem se apresentado em muitas competições desde os 9, 10 ou 11 anos, às vezes viajando pelo mundo todo. Eu já vi isso acontecer em mais de uma ocasião; ninguém ganha com isso.

Eu acho bom que algumas escolas se encontrem em uma emboscada. Alunos e pais muitas vezes acreditam que as escolas que produzem os maiores vencedores das competições são as melhores escolas. Os pais decidem então trocar o filho de escola, pensando que receberão melhor treinamento. Isso pode ser uma contradição total. Para ganhar uma competição e subsequente reconhecimento, um professor ou escola tem que dedicar um tempo considerável ao treinamento e aperfeiçoamento das variações de competição que invariavelmente tiram tempo do treinamento essencial de base. Algumas escolas exigem que bailarinos com menos de 16 anos de idade treinem entre seis e oito horas por dia, seis, até sete, dias por semana para aperfeiçoar seus solos. Se todo esse tempo é dedicado a apenas alguns passos dentro de uma variação particular, então o aprendizado de outro repertório ou outras habilidades são negligenciados.

E a educação acadêmica? Ouvi dizer que algumas crianças têm sua formação acadêmica reduzida a apenas algumas horas por semana. Todas as crianças devem ter e merecem uma boa educação acadêmica. Acomodar o estudo acadêmico significativo certamente se torna um problema se a maior parte do dia de uma criança é dedicada ao treinamento de balé. Não só os assuntos acadêmicos os ajudarão depois de sua carreira de dança, mas também um bailarino pensante e instruído se torna um artista muito mais bem-sucedido.

A maioria das principais escolas de balé estipulam apenas três ou quatro horas de treinamento de balé por dia para menores de 16 anos, cinco dias por semana, incentivando o descanso nos fins de semana. Para crescer saudavelmente na adolescência, o corpo precisa de repouso para evitar danos irreversíveis a longo prazo. Se a energia de uma criança é usada intensamente durante tantas horas, sobra pouca energia para o crescimento e concentração. Um bom treinamento diz respeito a uma construção cuidadosa e constante dos blocos de base, de modo que os bailarinos possam alcançar todo o seu potencial e longevidade em suas carreiras.

Através de anos de experiência, as competições responsáveis ​​mantêm critérios e abordagens rigorosos para garantir que as expectativas de um concorrente estejam alinhadas com a formação ética e inteligente e com as pesquisas mais recentes em saúde física e mental.

Um bom exemplo – a competição Prix de Lausanne permite apenas que os bailarinos participem a partir dos 15 anos de idade, garantindo que os participantes estejam suficientemente desenvolvidos fisicamente para desempenhar o conjunto exigido. Isso faz todo sentido quando a expectativa é praticar e executar o que é essencialmente uma variação de solista profissional ou de bailarino principal. Mesmo os melhores profissionais podem ser desafiados por essas variações. Nesta competição, o trabalho desenvolvido em sala de aula pelos bailarinos também recebe grande atenção, oferecendo outro aspecto possivelmente mais informativo e valioso do padrão e do potencial dos bailarinos durante seus anos de treinamento.

As competições podem ser uma ótima plataforma para os estudantes de dança ganharem experiência valiosa. No entanto, devemos, como setor, rever as expectativas e pressões impostas aos jovens, especialmente quando isso pode afetar sua saúde, crescimento e ciclo de treinamento. Enquanto os bailarinos sempre estarão em risco de sofrer lesões, acredito que é nosso dever estabelecer critérios rígidos para proteger as crianças e garantir que o treinamento artístico e técnico que requeremos seja adequado à idade.

Sinto-me animado que tantos líderes de balé, professores e treinadores estejam tentando proativamente lidar com isso. Espero que agora, e no futuro, possamos todos promover o que consideramos saudável, estimulante e no melhor interesse dos jovens que cuidamos.

Christopher Powney, Diretor Artístico, The Royal Ballet School

Tradução livre de Gabriela Faria

 

Link para texto original:

https://www.royalballetschool.org.uk/2018/11/07/ballet-competition-culture-are-we-putting-young-dancers-at-risk/



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